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Quem é que precisa mudar?

O Pr. Tobias procurou-me um dia para conversarmos sobre sua equipe ministerial. Alto e esguio, num traje impecável, parecia que seu olhar era como que de radar ligado observando 360o ao redor desde o momento que adentrou minha sala. Seu bigode espesso acompanhava o contorno de seus lábios na forte e convicta entonação em seus comentários e afirmações. Após algumas boas risadas, perguntei-lhe como ele realmente enxergava suas ovelhas. Ele começou-me a descrever num tom confidente e sussurrado: "na verdade, os membros da igreja que pastoreio são preguiçosos e indolentes, evitam o trabalho e procuram o menor esforço possível. Em sua maioria, eles evitam a responsabilidade a fim de se sentirem mais seguros e preferem ser controlados e dirigidos. Às vezes fico impressionado como eles são ingênuos e sem iniciativa, têm pouca imaginação e não querem crescer. No fundo todos querem ser servidos."

Pra falar a verdade fiquei um pouco atônito com aquela descrição. Percebi que a imagem daquela igreja local exigia (ou justificava) um estilo de liderança autoritária, com todo o processo de decisão centralizado. Sua comunicação era sempre verticalizada (de cima para baixo), com relacionamentos superficiais e subservientes. Aliás, notei que não havia propriamente uma equipe ministerial, mas um grupo de pessoas com grande dificuldade de perguntar os porquês e contribuírem com idéias e iniciativas. Havia uma grande distância entre ele e seus liderados.

A realidade é que todos agimos em nosso estilo de liderança na proporção de como vemos as pessoas a quem "lideramos" e "servimos". Se a percepção for de uma comunidade de pessoas esforçadas e que gostem de ter o que fazer, certamente isso nos empurrará a um estilo mais participativo. Nem tanto pela nossa benevolência e altruísmo, mas pelo fato de que pessoas que procuram e aceitam desafios, criativas, competentes e cheios de dons do Espírito Santo. não permanecem por muito tempo em um ambiente centralizado e autoritário. Logo buscam outro caminho.

O desafio da liderança da igreja não é fazer o trabalho de muitos, nem o de fazer muitos trabalharem para si. O desafio é criar uma comunidade ativa e dinâmica, onde todos podem exercer os dons distribuídos pelo Espírito Santo, ministrando-se mutuamente, gerando o crescimento de todos, ao redor de objetivos comuns. Para isso, o sistema de decisão precisa envolver pessoas, com canais de comunicação de mão dupla, desenvolvendo relacionamentos de conectividade e interdependência.

Após a longa e franca conversa, comentei "Pr. Tobias, se sua visão do corpo de Cristo não mudar, e se não compreender a potencialidade das pessoas que Jesus tem chamado para si, seu ministério será enterrado no dia de sua morte, se não morrer antes. Em primeiro lugar, não são as pessoas que têm que mudar, mas sua percepção delas."

Artigo de Rodolfo Montosa
Publicado em: abril 2007
Veículo: Revista Igreja (Número 9, ano 2)