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O dom de governo na Igreja


Publicado em 06.11.2006

Segundo o dicionário Houaiss1, governar é “exercer autoridade soberana e continuada sobre (outrem); controlar e dirigir a formulação e a administração da política; ter mando, direção; dirigir, administrar; controlar, dirigir ou fortemente influenciar as ações e o comportamento de (algo ou alguém)”. É certo que a expressão remete ao senso mais comum de coisa pública, mas seu significado vai além e aquém da aplicação de uma nação. Deus governa o Universo. Uma pessoa pode governar a si mesmo, sua casa e família. Alguém pode governar seus negócios. Líderes exercem governança sobre organizações. Pessoas são colocadas em função de governo da Igreja local.

Dentre as várias expressões correlatas ao tema, o hebraico bíblico utiliza-se da expressão mashal2 para governo, supervisão, ou dominação, em variada aplicação, ocorrendo aproximadamente 83 vezes no Antigo Testamento. Alguns exemplos são que o sol e a lua foram designados para governarem o dia e a noite (Gn 1.18); ao homem foi dado o governo da família (Gn 3.16); a Caim foi dito que deveria ter domínio sobre os próprios desejos (Gn 4.7); ao servo de Abraão foi delegada a função de governar (administrar) todos os bens de seu senhor (Gn 15.2; 24.2); a José foi dada a função de governador sobre a nação do Egito (Gn 45.8, 26); Moisés afirmou que Israel dominaria sobre outras nações sob certas condições (Dt 15.6). Todos estes casos trazem o conceito que a autoridade para o exercício do governo nasce de alguém, em algum tempo. Nasce o conceito de dom, dávida, de alguém ter concedido tal posição a outrem. Os textos hebraicos apontam Deus como sendo a última instância deste governo, de quem emana todo o poder e autoridade delegados a toda a criação e criaturas.

Por sua vez, o grego bíblico traz várias expressões úteis à construção da compreensão desejada. A expressão prohistemi3  presente em vários textos (Rm 12.8; 1 Ts 5:12; 1 Tim 3:4, 5, 12; 5:17; Tt 3:8, 14) traz o sentido de encabeçar, reger, preocupar-se com, ser o protetor ou guardião. Estes escritos paulinos, segundo parece, referem-se a um grupo que exerce liderança na Igreja. Já a expressão kybernesis4  utilizada somente em 1 Co 12.28 traz o sentido de administrador, aquele que toma decisões referentes ao governo, colocada dentro de uma lista grande de funções estabelecidas por Deus dentro da Igreja. Esta lista - conhecida como dons do Espírito - está no contexto do serviço uns aos outros. A expressão kyriotes5  utilizada em 2 Pe 2.10, Ef 1:21, Cl 1.16, Jd 8 é traduzida por dominação, poder, senhorio, aquele que tem a propriedade e domínio, governo, cuja mesma raiz vem a expressão kyrios. O sentido e aplicação de kyrios são amplos, aparecendo 717 no Novo Testamento, referindo-se aos senhores de terras e famílias (contraposição com servos), aos governantes e, principalmente, a Jesus como Senhor.

Já a expressão dom é conhecida em pelo menos duas dimensões. Na primeira como uma dádiva, algo recebido de alguém, um presente, uma graça (ex. Esta chuva é dom de Deus.). Na segunda dimensão entende-se dom como habilidade, capacidade de fazer algo, perícia, destreza (ex. Ela tem o dom da música). No primeiro sentido, o dom é recebido de alguém. No segundo sentido, o dom é reconhecido por muitos. Recebido de alguém para o benefício de muitos.

Dessa forma, o dom de governo na Igreja é a autoridade recebida de Deus que assegura o direito ou poder de ordenar, de decidir, de atuar, de se fazer obedecer sob determinada jurisdição, com vistas ao benefício maior daqueles que a reconhecem, a ela se subordinam e por ela são ministrados.

Mais que uma posição de poder, reconhece-se que aquele que tem o dom de governo o faz com naturalidade, com graça e habilidade, com destreza e em benefício daqueles a quem está a serviço. Quem está na posição de governo e o faz com legitimidade, exerce seu dom com destreza reconhecida e traz benefícios desejados àqueles sobre quem foi colocado para servir.

Na esteira da definição que se busca, fica evidente que alguém pode estar exercendo o governo sem ter o dom para tal. Compreende-se também que existem pessoas reconhecidamente possuidoras do dom, mas que não estão investidas na posição de governo. Nem todo governante tem o dom. Nem todo dotado governa. Entretanto ter o dom e estar devidamente investido para seu exercício não assegura o pleno êxito. Isto porque o objetivo maior a atingir é o benefício daqueles sobre quem se governa. Algumas coisas podem acontecer que desviam a finalidade do pleno exercício do dom de governo. Isso então traz à tona que os reais objetivos de quem governa tornam-se evidentes nos resultados promovidos. Aqui o tema volta-se ao coração do governante, às suas inclinações e valores.

Dessa forma, aqueles que têm o dom de governo na Igreja devem necessariamente promover o bem estar das pessoas que a compõem, servindo e não sendo servidos por sua posição, direcionando os recursos disponíveis, na visão e obediência ao Espírito Santo, promovendo o Reino de Deus em sua expressão de alegria, paz e justiça.

Notas:

1. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa.
2. HARRIS, Laird (org.). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p. 891
3. COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 228
4. COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 224, 229
5. COENEN, Lothar e BROWN, Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, p. 2318

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Título do artigo: O dom de governo na Igreja
Autor: Rodolfo Garcia Montosa

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