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A Igreja como organismo e organização


Publicado em 15.12.2006

A Igreja deve ser considerada um organismo, algo que possui e gera vida, ou uma organização, caracterizada pela estrutura e pela forma? Esta pergunta tem sido postulada de várias maneiras e por vários motivos durante toda a história do Cristianismo. “Os dois pontos de vista (organismo e organização) não precisam colocar-se em estado de tensão, pois é possível perceber que se completam mutuamente.”1

A constante e crescente tensão entre dois extremos na compreensão sobre a natureza da Igreja afeta diretamente a maneira como é governada. De um lado, alguns que, em nome da essência relacional do evangelho, da sublimidade da missão, da profundidade existencial do conteúdo bíblico e da adoração contemplativa, sacam seu arsenal verborrágico contra toda expressão organizacional da Igreja, fixando-se obcecadamente na comparação inexata e parcial com empresas de mercado ou qualquer outro tipo de instituição. Do outro lado, aqueles que, em nome do Reino de Deus, da carência dos necessitados, do cumprimento de seu chamamento e de sua própria visão, voltam-se alucinadamente para a obtenção de resultados objetivos em seus ministérios, ignorando por completo a crítica dos primeiros, ou qualquer outro tipo de reflexão teológico-bíblica por considerarem iniciativas desse tipo absoluta perda de tempo.

Algumas das principais metáforas bíblicas utilizadas para definição da Igreja evidenciam essa dupla natureza. São figuras de linguagem que reúnem ambas dimensões orgânicas e organizacionais: pedras (organizacional) vivas (orgânicas); lavoura (orgânica) e edifício (organizacional) de Deus; edificação (organizacional) do corpo de Cristo (orgânica); vinho (orgânica) em odres (organizacional); templo (organizacional) do Espírito Santo (orgânica); corpo (organizacional) vivo (orgânica). O grande desafio aos que governam, então, é conciliar essas duas realidades concomitantes. Não se levantar contra uma, como forma de exaltar a outra. Muito menos focalizar-se na outra, ignorando a existência da uma. Buscar as motivações santas e íntegras do coração na melhor excelência e destreza das mãos.

O governo no extremo da ênfase no Organismo

A terceira lei de Isaac Newton ao observar o comportamento de corpos em movimento diz que "para cada ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade." Este princípio da física pode ajudar na melhor compreensão do que aconteceu no processo da Reforma Protestante no que tange ao governo da Igreja.

O conceito Católico Romano sobre sua supremacia de governo vigente é que, em função de a Igreja ter sido o instrumento da produção da Bíblia tinha, por conseqüência natural, precedência sobre ela; além disso, dizia a doutrina romana ser a Igreja a despenseira de todas graças sobrenaturais; seu discurso era que “não é Cristo que nos leva à Igreja, mas a Igreja que nos leva a Cristo”. Estes pressupostos visavam o fortalecimento da Instituição Igreja Católica Apostólica Romana. A Igreja visível (mater fidelium – mãe dos fiéis) recebe toda a ênfase, e não a Igreja invisível (communio fidelium – comunidade de crentes). Destes conceitos advém os pensamentos da infalibilidade papal e a inerrância institucional.

A reação da Reforma vem na mesma intensidade em direção contrária para se estabelecer. Busca intencionalmente romper com esse conceito, centralizando a atenção na Igreja como organismo espiritual. Deu ênfase ao conceito que não existe Igreja fora da obra de Cristo e das operações renovadoras do Espírito Santo, concluindo, portanto, que o estudo destes precede logicamente à consideração da doutrina da Igreja. Foge do extremo do Institucionalismo para o extremo do Espiritualismo.

Algumas Confissões evidenciam esta reação ao institucionalismo2  pela estratégia espiritualista. A Confissão Belga, por exemplo, diz que “cremos e confessamos uma só Igreja católica ou universal, que é uma santa congregação de verdadeiros crentes cristãos, todos esperando a sua salvação em Jesus Cristo, sendo lavados por Seu sangue, santificados e selados pelo Espírito Santo.” Já a Segunda Confissão Helvética fala que “a Igreja é uma assembléia dos fiéis, convocada e reunida no mundo, uma comunhão de todos os santos, isto é, daqueles que verdadeiramente conhecem e retamente adoram e servem o verdadeiro Deus em Jesus Cristo, o Salvador, pela palavra do Espírito e que pela fé participam de todos os benefícios gratuitamente oferecidos mediante Cristo. Na Confissão de Westminster tem-se a definição de “Igreja católica ou universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, sua cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas”.  

Os reformadores aplicam-se em combater o fato que as expressões que se enumeram sobre a Igreja Gloriosa, sem rugas, sem mácula não se referem à Igreja considerada como instituição externa, mas à Igreja como corpo espiritual de Jesus Cristo.

É certo que a Igreja enquanto organismo é dinâmica, cheia de vida, produtora de vida, multiplicadora de si mesma. Seus elementos principais concentram-se em três prioridades propostos por Ortlund3 : compromisso com Cristo, compromisso com o Corpo de Cristo e compromisso com o mundo. O paralelo desta tríade vem da proposta de Hoekendijk4  com a fórmula de kerigma, koinonia e diakonia. No sentido teológico, existe consenso em afirmar que, em sua essência, a Igreja para que possa ser chamada de “Igreja” precisa apresentar três elementos: fé, comunhão e serviço. “A concepção reformada é que Cristo, pela operação do Espírito Santo, reúne homens Consigo, dota-os da verdadeira fé e, assim, constitui a Igreja como Seu corpo, a communio fidelium ou sanctorum (comunhão dos fiéis ou dos santos)5.” 

Aqui se entende a própria essência da Igreja. Sua composição. Sua missão. Seu propósito de existência. É a Igreja invisível, gerada em Cristo, governada por ele mesmo, guiada pelo Espírito Santo, que reúne o povo de Deus em todos os tempos. É movida pelas ênfases do coração de Deus, em tempo e liberdade que lhe apraz. É sustentada pela graça divina e destinada ao relacionamento eterno com seu noivo. “É a comunidade de todos os cristãos de todos os tempos, fundada por Jesus, invisível aos homens, visível somente a Deus.”6 Acrescenta-se a compreensão que “a Igreja é fundamentalmente uma comunidade carismática, existindo pela graça (charis, no grego) de Deus, sendo edificada pelos dons da graça (charismata), concedidos pelo Espírito Santo. Mais carismática que institucional.”7

Entretanto, os que governam e deixam-se ser governados ao extremo da visão estrita da Igreja como organismo tendem a ter cinco características controversas, segundo Schwarz8: subjetivismo, autonomia, dualismo, irracionalidade e misticismo.

São subjetivistas, pois querem fazer da experiência religiosa o padrão pelo qual tudo o mais é avaliado. Correm o risco de colocar o ser humano no lugar de Cristo. Ao enfatizar a experiência direta com o Espírito Santo, sempre buscam estabelecer a autonomia do indivíduo. Esta posição sustenta-se no pressuposto do dualismo entre espírito e matéria, no qual o espírito recebe prioridade absoluta. Por superestimarem os sentimentos religiosos, nos casos extremos, são levados à irracionalidade, podendo considerar o irracional como sendo mais espiritual do que aquilo que pode ser explicado racionalmente. Por último, tornam-se místicos no conceito de rejeição absoluta do mundo dos sentidos, da realidade empírica e do pensamento lógico.

O governo no extremo da Igreja como organismo proíbe o compromisso com qualquer forma externa, apesar de, incoerentemente, adotar necessariamente algum tipo de forma. Toma atitudes antiinstitucionais por considerar que todas as questões estruturais relacionadas à Igreja são espiritualmente irelevantes. Por coerência interna à suas convicções, o governo torna-se um “sem governo”. Deveria o governo por coerência à sua inconsistência rejeitar-se a si mesmo, pois sua expressão visível pode confundir sua natureza invisível. 

Aqueles que governam no equívoco espiritualista devem reconhecer sua incoerência e fazer as pazes com a expressão organizacional, por mais imperfeita que seja, buscando reformá-la, ao invés de ignorá-la.

Notas:
1. HORTON, Stanley M.. Teologia Sistemática, p. 557.
2. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, p. 518.
3. ORTLUND, Raymond. Let the Church Be the Church, p. 11, 119, etc.
4. HOEKENDIJK, J.Chr. The Call to Evangelism, p. 171ss.
5. BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática, p. 509.
6. GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática, p.716.
7. KEELEY, Robin (org.). Fundamentos da Teologia Cristã, p. 263.
8. SCHWARZ, Christian A.. Mudança de Paradigma na Igreja, p. 33-38.

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As obrigações legais das Igrejas
O Dom de governo na Igreja

O governo com ênfase na organização 

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Título do artigo: A Igreja como organismo e organização
Autor: Rodolfo Garcia Montosa

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