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Reflexão

Entre balanços e planos

Todo final de ano temos a excelente oportunidade para fazer um balanço de como as coisas foram, quais as perdas e os ganhos, bem como planejarmos o próximo ano ou sonharmos o futuro. Parece-me que somos intuitivamente levados a esse comportamento ditado pelo ano-calendário. Não deixa de ser algo positivo. Em uma dessas reuniões de final de ano fui convidado a trazer uma palavra, quando me lembrei nitidamente do episódio vivido entre Jesus, seus discípulos e algumas crianças que foram trazidas ao mestre (Mc 10.13-16). Esta passagem trouxe três lições bem claras ao meu coração.

1. Fazer a coisa certa – temos aqui os discípulos muito comprometidos a realizar as tarefas e atividades inerentes aos homens de confiança do mestre. Pensam, neste momento, que sua função é dar uma de guarda-costas e, cheios de razão, repreendem pais e crianças para não se aproximarem. Não queriam perturbar Jesus. Queriam poupá-lo de aborrecimentos. Talvez, ao final do dia, ficariam orgulhosos em relatar seus esforços e prestar contas do quanto foram úteis ao bom andamento da agenda. Foram surpreendidos. Foram repreendidos. Foram expostos e flagrados. Estavam fazendo a coisa errada, segundo seu líder. “Deixem  que as crianças venham!”, afirmou Jesus categoricamente. De fato, fazemos muitas coisas que simplesmente não deveriam ocupar nossas energias, sequer nossos pensamentos e preocupações. Coisas essas cheias de bons argumentos e razões para serem executadas, exigirem recursos, tempo e dedicação, mas que simplesmente não é a coisa certa a ser feita. Mas o que é a coisa certa a fazer? Sei que o Espírito de Deus é quem nos dirige, mas vale algumas lembranças. No campo pessoal, aquela conversa com o filho há tanto adiada, o tempo exclusivo com o cônjuge, as disciplinas da saúde física, a reflexão em silêncio, as boas e sinceras conversas com amigos. No campo do trabalho, o feedback difícil de fazer, o foco a ser reajustado, o enfrentamento de situações que nos deixam desconfortáveis, o desafio a aceitar, o abandono daquilo que não tem dado certo, o alinhamento dos comportamentos com os princípios do que se crê, aprender a dizer “não”, olhar nos olhos do chefe, do subordinado, de quem se está atendendo. O certo é o tempo do diálogo, do beijo, da expressão de afeto, daquela conversa difícil que evitamos, do elogio; o certo é o tempo na presença de Deus, o tempo com sua Palavra, a dependência na oração; o certo é ajudarmos mais que queremos ser ajudados, pois o dar é melhor que receber, o servir é melhor que ser servido. Uma pergunta para ter em mente: o que é o certo a fazer agora?

2.Ter a motivação certa – mais uma vez manifesta-se o amor exigente do mestre pelos seus discípulos dizendo que não somente eles deviam fazer a coisa certa, mas deviam ter seu coração como daquelas crianças: puro, espontâneo e verdadeiro. Há alguns dias eu estava acompanhando meu filho de 7 anos em sua oração antes de dormir. Ele agradecia a Jesus pelos vários eventos durante aquele dia, como a brincadeira com seu amiguinho, a escola, seu quarto com os brinquedos etc. De repente, para minha surpresa, ele fala assim ”mas Jesus, eu não gostei daquela carne na janta, pois tinha pimenta”. Como adulto não faria essa oração tão sincera ao Pai. Franqueza é uma virtude que só tem que experimenta a liberdade em Jesus, pois expõe o coração. Jesus nunca se deixou levar pela tentação de ser pragmático, preocupando-se com os fins, deixando de lado as motivações. Seu profundo conhecimento da natureza humana sempre o levou a questionar os porquês e a buscar as raízes do coração de cada pessoa com quem interagiu. No final do Sermão da Montanha, Ele aborda que nem todos que dizem “Senhor, Senhor” entrará no Reino de Deus, que nem todo que disser “mas em teu nome profetizei, expulsei demônios, realizei muitos milagres” será conhecido dEle. O que está em jogo é que Ele olha nossos corações, nossas motivações. T.S. Eliot chama de “o maior pecado de todos”: fazer a coisa certa pelo motivo errado. Ao abrir sua agenda, Jesus mais uma vez mostrou sua grande motivação pelos pequeninos, pelas crianças, marginalizados, necessitados, pecadores, doentes, pelos sem esperança, sabendo que não teria retorno financeiro, emocional ou político. Nossas motivações econômicas, de poder e sentimentais devem ser provadas pelo Senhor. Uma pergunta para ter em mente: por que estou fazendo isso?

3.Fazer certo a coisa – Jesus finalmente pega as crianças no colo, conversa com elas, conta histórias, ora e as abençoa. Faz daquele momento um grande momento para aquelas famílias. Um encontro para nunca mais ser esquecido. O melhor de sua atenção, carinho, afeto e demonstração de amor. O melhor de si mesmo. Não por obrigação, nem por querer um prêmio. Fez certo, com excelência, com toda intensidade e verdade. A sabedoria de Salomão já recomenda há muito que devemos nos aplicar a fazer o que nos vem às mãos com todas as forças (Ec. 9.10). De uma outra forma, o Apóstolo Paulo sugeriu que quer você coma, beba ou faça qualquer outra coisa, deve fazer tudo para a glória de Deus (1 Co 10.31). Tão ruim quanto fazer a coisa certa sem a motivação certa, é fazê-la mal feito. Faça como que diante dos olhos do Pai Celestial. Faça como que somente para Ele. Aplique toda a inteligência, mobilidade, inspiração, emoção, intensidade, beleza. Tudo o que fazemos deve estar revestido de arte, explorando os sentidos, a criatividade. Nossas palavras, olhares, gestos devem ser cuidadosamente balanceados e intencionais. Pense comigo no olhar, nas palavras, nos gestos, na profundidade de como Jesus abordou aquelas crianças. Fazer certo a coisa deve ser um alvo. Para isso precisamos aprender com outros. Com aqueles que muitas vezes não queremos admitir que fazem melhor que nós mesmos. Aqueles que às vezes não são tão “espirituais”. Que não estudaram tanto. Que não tem tanto conteúdo. Mas, mesmo sendo difícil admitir, fazem bem o que tem que ser feito. Uma pergunta para ter em mente: como posso melhorar o que devo fazer?

Assim, com essas três lições simples, mas profundas, prossigamos no balanço do que passou, planejando nosso próximo ano com mais convicção e inspiração. Tenha isso em mente!

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